Globo Rural
Do
plantio à colheita, só neste ano, ela deve movimentar algo em torno de
R$ 50 milhões nas duas safras. Mas ainda esbarra em questões polêmicas:
até hoje os órgãos públicos não entraram num acordo sobre a liberação
dessas grandes lavouras.
O
território paresi tem hoje uma população aproximada de 3 mil índios.
Eles estão divididos em 63 aldeias distribuídas em 1,3 milhão de
hectares onde mais de 95% é de cerrado nativo.
O cultivo é alternado: soja no verão, milho, feijão e o girassol, no inverno.
De tudo o que é colhido, o valor correspondente a 3 sacas por hectare é destinado tanto aos que trabalham quanto os que não atuam diretamente nela. No ano passado, o total distribuído chegou a R$ 2,7 milhões.
Necessidade e vocação
Segundo
um dos líderes mais engajados na defesa desse tipo de produção nas
terras do seu povo, o agronegócio por aqui surgiu numa mistura de
necessidade e vocação. Ele explica que o cultivo das lavouras trouxe de
volta os índios que estavam trabalhando em fazendas vizinhas.
“Com a implantação desse projeto aqui dentro nós trouxemos 180 indígenas imediatamente para trabalhar dentro do território”, diz Arnaldo zunizakae Paresi.
Mas
o início do agronegócio nessas terras também foi um momento de muita
tensão. Na época, nenhum órgão público autorizou a abertura das áreas.
Mesmo assim, os índios forçaram o plantio e a Funai tentou barrar a
produção.
“Nós
viemos, paralisamos o início das atividades. Os índios ficaram
revoltados e prenderam a equipe até o presidente da Funai aparecer para
poder nos soltar”, lembra Carlos Márcio Vieira de Barros, técnico da
fundação.
A partir daí, foram estabelecidas parcerias entre os índios e os agricultores da região.
Sem licença
A produção deslanchou, mas as questões ambientais continuaram.
“O Ibama nunca autorizou esse plantio, nunca licenciou a área”, diz o técnico da Funai.
Na
prática, segundo Barros, isso significa que os índios ficam anônimos
nessa situação: o agricultor vende a safra como se fosse dele.
Nesses
15 anos de cultivo de grandes lavouras também foram cometidas
irregularidades, como o arrendamento das áreas e o uso de transgênicos,
práticas proibidas em se tratando do cultivo nesse tipo de território.
Multas ultrapassam R$ 140 milhões, a maior parte destinada a 17 produtores rurais e o restante, para 5 associações indígenas.
Os
índios reconhecem o erro. “Dentro da terra indígena paresi, eram 9
contratos de parceria. Então, boa parte delas seguiu corretamente. Outra
parte, infelizmente, partiu para a prática do arrendamento”, explica
Arnaldo zunizakae Paresi. “Alugam a terra e ficam esperando o resultado
chegar sem fazer esforço, sem adquirir conhecimento, sem participar do
trabalho.”
O
presidente do sindicato rural de Campo Novo do Paresis, que representa
183 produtores, acredita que os agricultores provavelmente sabiam que
arrendar terra indígena é proibido.
Sobre
a falta de licença ambiental, Antônio Brólio afirma que eles já têm uma
liberação. “Pode ser não estar no papel, mas os órgãos públicos já
liberam eles para fazer esse plantio.”
Numa
tentativa de regularizar essa atividade nas suas terras, os paresis
criaram uma cooperativa no ano passado, a fim de chamar para si a compra
de insumos, a venda da produção e os contratos bancários. Mas há
dificuldades para acesso ao crédito.
O que diz a ministra
Historicamente,
a produção em escala dos paresis nunca foi escondida. Tanto que,
recentemente, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, visitou a
reserva e discursou em prol da grande lavoura.
“Eles
são brasileiros como nós. Então, precisam ter as mesmas regras, as
mesmas leis para todos. São produtores rurais. Não interessa são índios,
se são japoneses, se são gaúchos, se são matogrossenses... São
produtores rurais”, disse ela.
Restrições legais
“Eu
acho que o caminho não é o agronegócio”, afirma Antonio Carlos Bigonha,
subprocurador da República que coordena a câmara dos indígenas e das
comunidades tradicionais.
“Porque,
quando a constituição fala de posse, fala da posse tradicional. Então,
isso remete a uma agricultura que tem uma ligação com as raízes
culturais da comunidade”, explica.
“Nós
estamos dentro de uma terra indígena que não é uma reserva de
preservação ambiental, não é uma área de preservação permanente”, rebate
Deoclécio zalaizukaê Paresi. “É uma terra indígena onde a legislação dá
direito do índio trabalhar nessa terra, sim. E eu acredito que não
possa obrigar o índio a fazer uma agricultura primitiva.”
Fonte:Globo Rural
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