“No dia 1º de janeiro de 2017 ela sumiu de casa. Só fui encontrar minha filha no dia 9 de janeiro e foi através do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) Maria José da Silva Rado que eu soube que ela começou a usar droga aos 14 anos”, contou Maria Aparecida (nome fictício) ao Circuito Mato Grosso.
Enquanto levava a filha para uma consulta com o psiquiatra da unidade, localizada no bairro Jardim Europa, em Cuiabá, Maria Aparecida aceitou compartilhar sua luta para tirar a filha Letícia (nome fictício) das drogas. Alertada pela filha mais velha, ela não quis acreditar que a caçula estava usando entorpecentes.
“Tenho três filhas. Uma é casada e duas moram comigo. Uma delas é a Letícia. As outras duas nunca me deram problema e nem tinham muitos amigos. Já a Letícia sempre faz novos amigos. Minha filha mais velha chegou e disse: Mãe, a Letícia está usando droga, olha o comportamento dela. Mas eu não queria acreditar, sabe? Até que um dia de noite eu percebi que ela chegou estranha, chegou com um jeito diferente”.
Maria Aparecida trabalhava e não tinha convívio diário com a filha caçula que contou aos profissionais do CAPS ter começado pela maconha e pasta-base. Quando saiu de casa, no início do ano, foi que teve acesso ao crack. Passou nove dias sumida fazendo uso da droga. Nesse período tentou tirar a própria vida e só foi encontrada depois de entrar em contato com a mãe, num momento que o efeito havia passado.
“Ela conseguiu um celular e me mandou uma mensagem. Pedi que ela voltasse para casa que eu estava esperando por ela. Ela chegou chorando, desesperada. Eu perguntei: Filha, você quer ajuda? E ela disse que sim. Pediu que eu a ajudasse e foi o que eu fiz”, falou Maria Aparecida com a voz embargada.
A dona de casa levou Letícia para uma clinica de recuperação, onde ela permaneceu por vinte dias. Após esse período internada, quis voltar para casa e a mãe a buscou. Por dois meses Leticia não fez uso de nenhuma substância, mas teve uma recaída na quarta-feira (8).
“Nesses meses ela ficou na casa de uma tia, que tinha portão com cadeado e permanecia lá enquanto eu trabalhava, sempre sob os cuidados deles, que olhavam ela o tempo inteiro. Mas aí precisei deixar ela com o pai; foi quando minha filha teve uma recaída e sumiu por 24 horas. Fiquei desesperada”, relembra Maria Aparecida.
A menina foi até a casa de uma “colega”, cujo pai seria dono de uma boca de fumo. Chegando lá, havia droga “à vontade” para Letícia e a filha. “Ela me ligou no outro dia, perguntei onde ela estava e ela desesperada me pedia comida, dizia que estava morrendo de fome. Fui até a casa de outra amiga dela, que não usa drogas, e a trouxe para casa”.
A mãe deu banho e alimentou a filha, mas Letícia teve uma crise e passou mal. “Eu dei a medicação para ela, mas foi horrível. Ela teve uma crise de alucinação e me disse que tinha usado duas latas (crack), que tinha cheirado pó e fumado maconha. É horrível. Só vendo para você entender”, contou emocionada.
Letícia pediu que a mãe a internasse em uma clínica e nesta quinta-feira (14) completou uma semana que ela está na casa de recuperação. A iniciativa partiu dela e a mãe a respeitou. O atendimento no CAPS deverá continuar já que foi muito importante para elas saberem lidar com a situação.
“Foi para os profissionais daqui que ela contou que começou a usar por curiosidade, que teve acesso através de amigos na escola. Aqui é muito importante para a Letícia, ela tem psicólogo, psiquiatra, médicos que a ajudam. E eu tenho certeza de que pelo fato de ela querer sair desse mundo, já é uma grande coisa. Ela vai bem e vai sair desta”, assegurou a mãe.
PESQUISA NACIONAL DE SAÚDE DO ESCOLAR
Dados divulgados pela Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) são alarmantes sobre os hábitos dos adolescentes brasileiros. O estudo referente ao ano de 2015 revela:
- 55,5% dos estudantes de 13 e 15, concluintes do 9º ano em escolas públicas e privadas de todo o país, já experimentaram bebidas alcoólicas;
- Os que usaram drogas ilícitas aumentaram de 7,3% em 2012 para 9% em 2015;
- A forma mais comum de acesso ao álcool é em festas, apontadas por 43,8% dos adolescentes que já consumiram álcool, mas 17,8% deles revelaram ter conseguido bebidas com amigos;
- 14,4% comparam em mercado, loja ou bar; e 9,4% conseguiram a bebida com alguém da própria família;
- 56,1% das meninas já experimentaram álcool, contra 54,8% dos garotos;
Problemas motivam consumo e pais devem atentar aos sinais
O psiquiatra do CAPS Alexandre Falconi explica que na maioria dos casos os adolescentes acabam procurando o álcool ou a droga por estarem passando por algum problema. “A criança e o adolescente têm uma peculiaridade diferente da do adulto. A dependência do adulto, em sua maioria, está ligada ao prazer proporcionado, já a criança e o adolescente estão ligados a alguma coisa, um abandono, um problema psiquiátrico ou maus-tratos, e buscam a droga ou álcool como um remédio”.
A família deve estar atenta ao comportamento das crianças e adolescentes. Os pais, responsáveis, professores, parentes, amigos, devem estar atentos para a rotina deles. A falta de motivação para realizar atividades rotineiras é um dos principais “sintomas” de que a criança ou o jovem possa estar envolvido com drogas.
São eles: falta de motivação para estudar ou trabalhar; mudanças bruscas de comportamento; troca do dia pela noite; inquietação, irritabilidade, ansiedade; insônia; olhos avermelhados, olheiras; necessidade cada vez maior de dinheiro; sumiço de objetos de valor ou dinheiro etc., de pertences de valor de dentro de casa ou de amigos e parentes.
“Dependendo da droga, ele só vai querer dormir, vai querer fugir de casa, principalmente devido às alterações de comportamento”, alerta o especialista que reforça a necessidade de também se ficar atento para os efeitos que a droga causa.
Segundo o médico, a maconha deixa o olho vermelho, então os pais podem achar colírios no meio das coisas dele (ou dela), isqueiro. “O próprio vocabulário deles também muda, eles passam a falar mais gírias, outras palavras, ficam mais valentes”, exemplifica Alexandre Falconi.
Há alterações súbitas de humor, uma intensa euforia alternada com choro ou depressão; Começa a se relacionar com amigos diferentes; fica mais descuidado com a higiene pessoal; Tem atitudes de culpa e reparação: agride os pais, chora, se tranca no quarto; passa noites fora de casa.
A dependência, no entanto, tem critérios, segundo o médico. “No caso do álcool, a pessoa passa a ter crises de abstinência se não ingere a bebida. Você precisa de uma quantidade X para atingir aquele grau de satisfação. Na criança o álcool demora mais, porém a dependência das outras drogas é mais fácil”.
Abandono do tratamento
Um dos grandes problemas enfrentados no CAPS é a desistência do tratamento. Conforme a coordenadora especial de Rede Assistencial de Saúde Mental, Darci Silva Carvalho, é difícil para o adolescente seguir com o acompanhamento quando ele não recebe apoio.
“Quando eles chegam aqui, a gente visita a casa deles, vai à escola pra saber se está indo, porque saiu da escola, conversa com a família, traz aqui, mostra que tem médico, atividades, mostra que não é uma coisa distante deles. Mas cabe a eles se envolverem”.
Em alguns casos, quando percebem a melhora do filho, os próprios pais permitem que eles deixem de ir até o CAPS. A falta de condições também ajuda. “Alguns precisam pagar várias passagens de ônibus e não têm o dinheiro. Outros se autoliberam do tratamento por acharem que já conseguem lidar com o problema sozinhos”.
A alta dos pacientes é feita pela equipe de profissionais e só pode ser autorizada após inúmeros fatores estarem de acordo. O acompanhamento, no caso de dependentes, é feito pelo resto da vida, por isso é importante levar o tratamento até o fim.
Fonte: CircuitoMT
Postar um comentário
O Portal DN Notícias não se responsabiliza pelos comentários aqui postados. A equipe reserva-se, desde já, o direito de excluir comentários e textos que julgar ofensivos, difamatórios, caluniosos, preconceituosos ou de alguma forma prejudiciais a terceiros. Textos de caráter promocional, inseridos sem a devida identificação do autor ou que sejam notadamente falsos, também poderão ser excluídos.
Lembre-se: A tentativa de clonar nomes e apelidos de outros usuários para emitir opiniões em nome de terceiros configura crime de falsidade ideológica. Você pode optar por assinar seu comentário com nome completo ou apelido. Valorize esse espaço democrático Agradecemos a participação!