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Com bois para venda, pecuaristas têm prejuízos com a suspensão de abate
Em Mato Grosso, os pecuaristas já sentem os reflexos da suspensão do abate nos 10 frigoríficos da JBS, confirmada nesta quinta-feira (23), mas que, em alguns locais, começou desde o início da semana, de acordo com os produtores. Márcio Braga, criador de gado em Pontes e Lacerda, a 483 km de Cuiabá, por exemplo, havia programado a venda de um lote de 400 bois, prontos para o abate, para esta semana, quando foi informado pela empresa que as compras estavam suspensas.
Em nota, a JBS informou que, além dos abates por três dias, com início nesta quinta-feira, a redução das atividades continuará na semana vem. A empresa vai operar com 35% da sua capacidade produtiva. "Essas medidas visam ajustar a produção até que se tenha uma definição referente aos embargos impostos pelos países importadores da carne brasileira", disse.
Sem um "plano B", já que toda a produção é vendida para o frigorífico da JBS que fica no município, Márcio Braga disse que ainda não sabe o que fazer. "Estou perdido e não pensei numa alternativa. Meu pai trabalha com bois para abate há 20 anos e nunca passamos por uma situação como essa", declarou o pecuarista.
Ele cria 3 mil cabeças de gado no sistema de semiconfinamento, quando o animal se alimenta de ração e também de pasto, e a cada 20 dias entrega essa média de 400 bois ao frigorífico. Com esse atraso na venda desse lote, Braga já fica apreensivo com a próxima entrega, dos animais que devem ficar prontos para o abate em aproximadamente 15 dias.
"Na sexta-feira passada (17), eu entrei em contato com a JBS para vender esses animais e me disseram que a compra estava suspensa. Então, há uma semana são 500 bois comendo sendo que poderiam já ter sido entregues", afirmou o produtor. Ele explicou que o custo diário de cada boi é de R$ 5 e esse gasto não retorna.
Segundo ele, quando que o animal chega a determinado peso não engorda mais e depois é vendido por arroba, ou seja, o frigorífico vai pagar o mesmo valor que seria pago no período em que o boi estava pronto para o abate.
O também pecuarista Tulio Roncalli, que mora na mesma região, já teme os impactos da suspensão do abate após os embargos à carne brasileira depois da Operação Carne Fraca. "O pecuarista está sendo prejudicado porque tem a cultura de pagar as contas em dia, então depende dessa venda, diferente de outros setores. E com o boi no pasto o custo aumenta", afirmou. 
Os frigoríficos, como explica Roncalli, possuem uma escala para abate. "Eles compram e marcam o dia do embarque. Daí abate no outro dia. Já tem uma escala pronta. Vai chegar o momento em que tem que comprar. Eles [do frigorífico] não informam quanto tempo têm de escala", disse.
Ele avalia que as plantas frigoríficas com escalas maiores de abate devem voltar a comprar em breve. "Mato Grosso produz uma das melhores carnes do país. O animal é criado de acordo com que o mercado exige, mas também estaremos arcando com os custos disso", enfatizou. Roncalli se considera um produtor médio.
Apenas no frigorífico de Pontes e Lacerda são abatidos em torno de 800 animais por dia.
Além da venda direta
Os prejuízos ainda vão além da venda direta de bovinos aos frigoríficos. Quem trabalha com a produção de bezerros para comercializar aos animais para os criadores de bois para engorda também já está sentindo as consequências dessa suspensão, como é o caso do pecuarista Jorge Mariano, que possui fazenda em Juara, a 690 km de Cuiabá.
Ele tinha acertado a venda e entrega de uma remessa de 300 bezerros nesta semana, mas, segundo o produtor, o comprador cancelou o negócio depois da suspensão, já que os bois que deveriam ter sido entregues para o frigorífico ainda continuam na propriedade.
"Cortaram a fonte [de renda] dele e a minha também. Temos compromissos, despesas que não pararam, e isso é preocupante. Dá um choque porque não sabemos quando vai melhorar", avaliou o pecuarista, que produz uma média de 1.700 bezerros machos e fêmeas por ano.
No frigorífico de Juara, de acordo com o produtor rural, a compra foi suspensa na última segunda-feira (20) e o abate, na quinta-feira (23). "Toda a cadeia está sendo prejudicada", lamentou.
Ele vende os bezerros com oito meses de vida e quem compra cria os animais até os 18 meses, no máximo.
O frigorífico da JBS em Juara abate cerca de 600 cabeças de gado por dia e, durante os três dias de suspensão do abate, deve deixar de abater quase 2 mil animais. Além da JBS, segundo o produtor, outro frigorífico da região também parou de comprar após a redução na exportação.
Operação Carne Fraca
A Polícia Federal aponta um esquema de fraude na produção e comercialização de carne. Além de corrupção envolvendo fiscais do Ministério da Agricultura e produtores, a investigação encontrou indícios de adulteração de produtos e venda de carne vencida e estragada. Das 21 fábricas investigadas, 18 ficam no Paraná. Existe ainda a suspeita de que partidos políticos tenham sido beneficiados com o pagamento de propina.
Fonte:G1/MT
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