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Viajando com a família a passeio pelo interior de Mato Grosso e do Brasil, é impossível não notar a variedade de pessoas e comércios na “beira de estrada”. Estas pessoas refletem não só uma realidade social, como representam um tipo de cultura bem brasileira, da terra, do interior, daquele Brasil idílico e sofrido que encontramos em poemas e canções.
No trecho da BR-163, que corta Itaúba, município com cerca de quatro mil habitantes no interior de Mato Grosso, há aproximadamente trinta bancas da castanha-do-pará ou castanha-do-brasil, à beira da estrada. Algumas abrigam famílias que há anos trabalham com a semente, passando o legado de geração a geração.

O comerciante Nilson José Vieira, 67 anos, começa a vender castanhas na banca em Itaúba às seis horas da manhã e volta para casa somente às sete da noite. Em um dia de bastante movimento, que costuma acontecer no período de colheita, entre outubro e março, ele chega a vender mais de duzentos reais em castanha. “Tenho umas cem latas de quase vinte quilos cada guardadas para vender depois da safra, desse jeito consigo viver da castanha o ano inteiro”, conta Vieira. 

A atividade emprega aproximadamente 400 trabalhadores na extração e no beneficiamento do produto. Hoje, eles estão organizados basicamente em duas instituições: a Associação dos Coletores da Castanha-do-brasil de Itaúba – MT (Ascocabi) e a Associação das Mulheres Beneficiadoras da Castanha-do-brasil (ABC/Mulheres). 
A imaginação gastronômica dos comerciantes não tem fim. Em Itaúba, são vendidas castanhas torradas e salpicadas, banhadas em açúcar e canela, envoltas em uma fina camada de leite condensado, trituradas e prensadas como uma paçoca ou mesmo in natura, ainda com casca, e até no formato mais original – dentro dos ouriços onde elas crescem. 

Esse e outros quesitos levaram pesquisadores contratados pela Usina Hidrelétrica Colíder a classificarem a atividade como um patrimônio cultural daquela localidade. O levantamento está sendo feito por meio de um programa de salvamento do patrimônio histórico, cultural e paisagístico da região patrocinado pela Usina, que consiste em salvaguardar, registrar e divulgar a memória e o patrimônio das comunidades das áreas de influência direta e indireta da hidrelétrica, criando condições para que as futuras gerações tenham acesso a esse conhecimento. 

Segundo a antropóloga Mariana Gonçalves Moreira, a castanha é motivo de orgulho para os mato-grossenses: “Identificamos primeiro por meio do discurso das pessoas que ela é um verdadeiro símbolo da região, que movimenta a economia e está enraizada na cultural local, o que agrada produtores e comerciantes”, conta. 

No trajeto de Sinop a Colíder é possível contemplar castanheiras imponentes às margens da rodovia, principalmente no trecho de Itaúba. O município recebeu, em 2009, o título de capital estadual da castanha e todo ano promove uma festa temática. Segundo dados da Secretaria Municipal de Agricultura, Meio Ambiente e Turismo, a produção varia entre 45 e 300 toneladas de castanha por ano, dependendo da interferência do clima e do volume de chuvas, e é colhida em áreas que totalizam 40 mil hectares. Cerca de 40% da produção é vendida fora de Itaúba e os outros 60% são comercializados em bancas às margens da rodovia. Uma pequena parte é vendida para cooperativas, associações e moradores da cidade, na feira local. O município de Cláudia também produz a semente, embora em quantidade menor do que Itaúba. 

Sustentabilidade 

A castanha-do-brasil (Bertholettia excelsa) é uma espécie nativa da região amazônica. A árvore chega a medir 50 metros de altura e até dois de diâmetro. Seu ciclo de vida dura cerca de quinhentos anos e pode chegar a mais de mil. O período de amadurecimento e queda dos frutos ocorre entre os meses de outubro e abril, quando acontece a coleta. 

O processamento da castanha é feito de forma artesanal, com uso de facão, foice, martelos e faca. A atividade é caracterizada pela sustentabilidade, pois gera renda, preserva a biodiversidade e possui baixo impacto ambiental, uma vez que não exige a derrubada da vegetação e não prejudica a função ambiental da área. A preservação do norte do Mato Grosso é de extrema importância por fazer parte da Amazônia Legal. 

Patrimônio histórico 


O Programa de Salvamento do Patrimônio Histórico, Cultural e Paisagístico e Educação Patrimonial consta no Projeto Básico Ambiental (PBA) da Usina Colíder, que faz parte do licenciamento ambiental da obra. A Copel Geração e Transmissão S.A. – empresa responsável pela Usina – contratou a empresa Temporis Consultoria Ltda., especializada em levantamentos de patrimônio cultural, para realizar o trabalho.

O programa teve início em julho de 2012, sob coordenação do historiador Raul Lanari, com equipe formada pela antropóloga Mariana Moreira e pela geógrafa Leylane Ferreira. Além da pesquisa em campo, também estão previstas palestras em escolas e comunidades da região. 

Segundo o artigo 216 da Constituição Federal, constituem o patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente e em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação e à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais incluem: as formas de expressão; os modos de criar, viver e fazer; as criações científicas, artísticas e tecnológicas; as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais; os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológicos, ecológicos e científicos. 
Redação - Stéfanie Medeiros
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